Alice Munro – Discurso da Cerimônia de Premiação do Nobel de Literatura de 2013

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Alice Munro foi a escritora agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2013 por ser “mestre da narrativa breve contemporânea”. Alice foi a primeira pessoa na história do Nobel a receber o prêmio por escrever exclusivamente contos.

 

No discurso de cerimônia do prêmio, o professor Peter Englund fez a leitura de um texto em homenagem à autora, texto este que resume e atiça a curiosidade daqueles que nunca leram a obra desta incrível escritora. Sem mais delongas, segue abaixo a minha despretenciosa tradução do texto de Peter Englund.

 

Isso pode parecer um paradoxo, mas, na verdade, é algo bem lógico: o que chamamos de literatura mundial tem, geralmente, suas raízes no local e no indivíduo. Na sua escrita, Alice Munro retrata, com uma precisão quase antropológica, um dia-a-dia tranquilo, com vestes externas previsíveis; sua equivalente ao Yoknapatawpha de William Faulkner encontra-se no sudoeste de Ontario. Esta paisagem rural, com seus vastos rios e pequenas cidades, é onde a maior parte dos seus contos se desdobram. Mas a serenidade e simplicidade são ilusórias de todas as maneiras.

A tranquilidade do mundo exterior é sempre aparente nos trabalhos de Alice Munro, que então abre os portais para um mundo interior onde o oposto é verdadeiro. Munro escreve as pessoas que normalmente são chamadas de ordinárias, mas sua inteligência, compaixão e poder de percepção extraordinário, permitem que ela dê às suas vidas uma dignidade notável – na verdade uma redenção – dado que ela mostra o quanto do extraordinário cabe dentro daquele potinho vazio chamado O Ordinário. O trivial e o banal são entrelaçados com o magnífico e o
impenetrável – mas nunca ao custo da contradição. Se você nunca se pegou fantasiando sobre os estranhos que vê no ônibus, você começa a fazê-lo após ler Alice Munro.

Seus contos não se baseiam muito no drama exterior. Eles são uma peça, um mundo de silêncios e mentiras, aguardando e desejando. Os maiores eventos ocorrem no interior dos personagens. O maior dos planos permanesse inexpressado. Como poucos, ela se interessa no silencio e nos silenciados, nos passivos, naqueles que escolheram não escolher, naqueles que vivem à margem, os desertores e os perdedores. Barreiras de gênero e classe nunca estão distantes
em seu trabalho.

Na topografia mental que é única de Munro, o que pode ter acontecido é, muitas vezes, tão importante ao que de fato ocorreu. De suma importância são todas as coisas que seus personagens podiam ou não gostariam de entender, mas isto só se revela muito depois, na melhor das hipóteses na forma de epifania. Ela mostra que nosso Eu mais interno é essencialmente inacessível a outras pessoas, comumente iludindo a nós mesmos – até que seja tarde demais.

De uma forma descompromissada, Alide Munro demonstra que o amor raramente nos salva ou nos leva seguramente à felicidade, e que poucas coisas podem ser tão devastadoras para nós quanto os nossos sonhos. Sexualidade é uma presença constante e seu poder é excitante, mas muitas vezes cego e até mesmo devastador. Mesmo que uma felicidade genuína possa ocorrer, algumas vezes de forma acidental, as pessoas raramente ficam inpunes por acreditar no amor romântico. Isso pode parecer insuportavelmente sombrio, ou mesmo doloroso, se sua lucidez penetrante não fosse misturada com algo que – na falta de uma palavra melhor – eu chamaria de ternura. Se você lê muitos dos trabalhos da Alice com cuidado, mais cedo ou mais tarde, em um dos seus contos, você irá se deparar cara a cara consigo mesmo; este tipo de encontro sempre lhe deixará abalado e, as vezes, mudado, mas nunca destruído.

O aparente nível superficial prosaico dos contos de Alice Munro é intercalado de uma forma interessante no seu estilo de escrita e na sua distinta técnica narrativa. O estilo minimalista que encontramos é limpo, transparente, súbito e estonteantemente preciso. É um desafio encontrar alguma palavra desnecessária ou uma frase supérflua. Ler um dos seus textos é como assistir um gato caminhando sobre uma mesa de jantar arrumada. Um conto curto pode muitas vezes abordar décadas, sumarizando uma vida, enquanto ela se desloca habilmente entre diferentes períodos. Não é atoa que Alice Mundo é comumente capaz de dizer mais em 30 páginas do que um novelista ordinário é capaz em 300. Ela é uma virtuosa da elíptica e – como a Academia disse na sua breve citação no prêmio – e uma mestre das histórias breves contemporâneas.

Ao longo dos anos, numerosos cientistas de renome, receberam seus merecidos prêmios neste auditório por terem solucionado alguns dos grandes enigmas do universo ou da nossa existência material. Mas você, Alice Munro, como poucos outros, aproximou-se de solucionar o maior mistério de todos: o coração humano e seus caprichos.

A Academia Sueca lhe parabeniza. Eu agora peço para que Jenny Munro levante-se, no lugar de sua mãe, para receber o Prêmio Nobel de Literatura de 2013, diretamente das mãos da Vossa Majestade, O Rei.

Alice munroPara ler outros posts sobre a autora, acesse este link.

Obrigado pela leitura e até o próximo post.


About rltoscano

Nascido na cidade de Niterói em 1987, Rafael L. Toscano graduou-se em Ciência da Computação pela Universidade Federal Fluminense e trabalha atuando na própria área. Começou a escrever contos e poemas quando adolescente e guardava-os em diversos arquivos em seu computador ou num pequeno caderno. Em 2012 criou a página com o seu nome no Facebook, onde começou a publicar textos mais curtos sobre temas diversos. Mas foi em 2014 que passou a atualizá-la com maior frequência e a dedicar-se mais à sua maior paixão: a escrita.
Leitor e escritor apaixonado, Rafael é autor e desenvolvedor do site OToscano.com e está terminando o seu primeiro livro, um romance policial intitulado “Enforcados”.

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