Juliana Daglio

Uma Canção para a Libélula

Compartilhe com seus amigos
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Leitura anotada do livro Uma Canção Para a Libélula

Olá, caro leitor.

Nas próximas linhas falarei sobre o romance de estreia da autora Juliana Daglio, a menina libélula. Uma Canção Para a Libélula tem Vanessa como protagonista, uma pianista com carreira promissora que a muitos anos deixou o Brasil para morar em Londres. Para as pessoas ao seu redor, tudo está no seu devido lugar: Vanessa é uma  garota linda, possui um namorado responsável e inteligente e, além disso tudo, toca piano de forma magistral desde pequena. Uma daquelas crianças que nasceram para a música e possuem um amor tão grande pelo instrumento que acabam recebendo a alcunha de gênios.

É assim que o mundo enxerga Vanessa: uma garota genial e perfeita. Porém, sabemos que todos possuem os seus demônios.

A verdade é que seu passado é como um baú onde suas memórias mais cruéis foram guardadas, trancafiadas e  depois jogado no fundo do oceano. Mas por mais que tentemos expulsar as piores lembranças, sempre há um pedacinho delas que, ao perceber o perigo, trata logo de esconder-se em algum canto onde nossa consciência não seja capaz de tocar-lhe. Ela permanece lá, acuada, escondida, aguardando a oportunidade ideal. No caso da Vanessa, a oportunidade surge com o pedido de casamento do seu namorado, Jude. Eis o momento que historicamente costumamos chamar de “a gota d’água”.

A partir daí uma série de acontecimentos traz à tona esse lado obscuro da vida da personagem, levando-nos a uma viagem na mente de uma pessoa que viveu um trauma muito forte na infância. O livro, assim como a mente de Vanessa, aguarda a oportunidade de revelar o que realmente aconteceu, o que tanto perturba a sua mente e permanece escondida nas sombras.

Os dois pontos mais notáveis da história pra mim são: a narrativa alterna entre a realidade e os sonhos de Vanessa. E, a medida que a história avança, os tais sonhos a transportam para mais perto daquilo que sua mente luta tanto para manter escondido, principalmente com a volta de Vanessa ao Brasil.

Outro ponto importante é o tema em si: a depressão – e as doenças psicológicas em si. Muitas pessoas, quando descobrem que um amigo ou parente está com depressão, acaba achando que é “frescura”, palhaçada e que basta a pessoa sair para um passeio que tudo ficará bem. Mas, a realidade é que depressão é uma doença e, além da dificuldade que o paciente tem em lidar com ela, ele acaba sendo excluído socialmente justamente pelo fato das pessoas não conhecerem nada sobre o tema e ainda não darem valor a este problema gravíssimo. Uma Canção para a Libélula traz a tona esse tema que é tão marginalizado e, ao mesmo tempo, nos mostra bem a mente de uma pessoa depressiva, aproximando-nos desta realidade tão cruel.

Capítulo Favorito: 7 – Dez passos em direção à queda.

Gostaria de falar algo interessante em relação a minha leitura sobre esse capítulo. Logo no primeiro parágrafo lembrei-me do meu poeta brasileiro favorito, João Cabral de Melo Neto. Segue abaixo o trecho em questão:

Tudo começa assim: uma tristeza aqui, um dia de apatia ali; uma angústia fraca, outra forte. Depois vem a perda de interesses. Resolve-se reconhecer a própria inutilidade. Não há vontade alguma de levantar da cama, e quando se levanta não há vontade de voltar. Daí por diante tudo parece estar perdido.

Parece não ter volta.

Talvez não tenha.

Para voltar é preciso querer, e quando essa vilã assombrosa assume seu lugar na vida de alguém, ela retira até mesmo o direito de querer.

Uma canção para a Libélula, página 147.

 

Assim que li essas linhas, lembrei-me logo do poema “Como a Morte se Infiltra”, que você encontra também aqui:

 

Certo dia, não se levanta
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz por que:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.

Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

Outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração ?
Muda de cama. Eis seu caixão

 

E é assim que termino esta “leitura anotada”. Espero que tenham gostado. Se você ainda não leu e se interessou, compre o livro com a autora e deleite-se. Agora ficarei no aguardo da parte dois, O Lago Negro. Mas, quem sabe a leitora volte a aparecer aqui para uma entrevista?

Um grande abraço e até a próxima!


About rltoscano

Nascido na cidade de Niterói em 1987, Rafael L. Toscano graduou-se em Ciência da Computação pela Universidade Federal Fluminense e trabalha atuando na própria área. Começou a escrever contos e poemas quando adolescente e guardava-os em diversos arquivos em seu computador ou num pequeno caderno. Em 2012 criou a página com o seu nome no Facebook, onde começou a publicar textos mais curtos sobre temas diversos. Mas foi em 2014 que passou a atualizá-la com maior frequência e a dedicar-se mais à sua maior paixão: a escrita. Leitor e escritor apaixonado, Rafael é autor e desenvolvedor do site OToscano.com e está terminando o seu primeiro livro, um romance policial intitulado "Enforcados".

4 comments:

  1. Rafaaaaaaaa!! Estou emocionada com suas resenhas, e lisonjeada por saber que a palavras lhe levaram a lembrar de tal nome de nossa literatura.
    Nem sei colocar em palavras o quanto estou agradecida.

    Ah, O Lago Negro é uma outra história, a parte II vem com mesmo nome :D.
    Espero ver os dois comentados aqui por um autor brilhante, que considero um amigo.
    Beijos!!

    1. Que bommmmm, Juuuuuu.
      A tá, muito bom! Depois vou editar então 😀

      E obrigado pelo autor brilhante rs.
      Eu que fico feliz de ler seus livros e poder fazer um post bom aqui 😀

      Beijão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *