Charles Bukowski

Carta de Charles Bukowski ao seu primeiro chefe

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Carta de Charles Bukowski ao seu primeiro chefe: uma forma de agradecimento

 

Ainda aos quarenta anos, Bukowski trabalhava nos correios durante o dia, escrevia para uma revista de Los Angeles chamada Open City no seu tempo livre e colaborava, junto a um amigo poeta, para uma revista literária. Em 1969, aos quarenta e nove anos, John Martin, editor da Black Sparrow Press, ofereceu a Bukowski uma quantia mensal de cem dólares para que ele largasse seu emprego e se dedicasse exclusivamente à escrita. Bukowski aceitou o convite e, dois anos depois, publicou seu primeiro livro intitulado Cartas na Rua (Post Office no original) pela própria Black Sparrow.

Vinte anos depois, em 1986, Bukowski enviou ao seu primeiro patrão uma linda carta mostrando sua gratidão ao homem que lhe tornou possível dedicar o resto dos seus dias a escrever.

Essa carta – e Bukowski em si – é uma inspiração, reflexão e exemplo a todas as pessoas que possuem um sonho, mas colocam na cabeça que já é tarde. Vejo todos os dias pessoas com seus vinte e poucos anos desistindo dos seus maiores sonhos simplesmente porque escuta todos dizerem que já é tarde ou que não é possível. Nunca é tarde!

Vamos à carta:

 

12 de Agosto de 1986

Olá, John:

Obrigado pela adorável carta. Não penso que lembrar-se, algumas vezes, de onde viemos seja algo doloroso. Você conhece os lugares de onde vim. Até mesmo aqueles que tentam escrever sobre isso ou fazer filmes sobre o assunto, eles não o fazem de maneira fidedigna. Eles costumam chamar de “9 para 5”. Nunca é 9 para 5, não há pausas para almoço nesses lugares. Na verdade, em muitos deles, para você manter o seu trabalho você precisa abrir mão do almoço. E depois há os prazos e os livros parecem nunca ficar prontos no tempo certo e se você reclamar sobre isso, haverá algum outro idiota para tomar seu lugar.

Você conhece minha antiga frase, ‘A escravidão nunca foi abolida, ela foi simplesmente estendida para incluir todas as cores’.

E o mais doloroso sobre isso é a constante perda de humanidade daqueles que lutam para manter empregos que não querem, mas temem uma alternativa pior. As pessoas simplesmente esvaziam. Eles são corpos com uma mente temerosa e obediente. A cor deixa seus olhos. A voz torna-se feia. E o corpo. E as unhas. Os sapatos. Tudo fica.

Sendo um rapaz jovem eu não acreditava que as pessoas poderiam seguir com suas vidas nessas condições. Como um homem velho eu ainda não consigo acreditar. Por que elas fazem isso? Sexo? TV? Um automóvel em dívidas mensais? Ou crianças? Crianças que vão somente fazer as mesmas coisas que elas fizeram?

Antigamente, quando eu era bem jovem e trocava de um emprego para o outro eu era tolo suficiente para falar com meus colegas de trabalho: ‘Olha, o chefe pode entrar aqui a qualquer momento e mandar a gente embora, do nada, vocês não conseguem perceber isso?’

Eles só me encaravam. Eu estava mostrando algo pra eles que eles não queriam que entrasse em suas mentes.

Agora, na indústria, há demissões em massa (siderúrgicas falindo, mudanças técnicas em outros fatores do local de trabalho). Eles são mandados em bora às centenas de milhares e suas faces são de espanto:

‘Eu me dediquei durante 35 anos…’

‘Isso não é certo…’

‘Não sei o que fazer…’

Eles nunca pagam o necessário para os escravos tornarem-se livres, mas somente o suficiente para que consigam sobreviver e voltar a trabalhar. Eu podia ver isso tudo. Por que eles não? Eu percebi que o banco da praça ou os bancos dos bares eram igualmente bons. Por que não escolhê-los como primeira opção antes deles te colocarem lá? Por que esperar?

Eu só escrevi em desgosto em relação a isso tudo, para mim foi um alivio conseguir tirar toda essa merda do meu sistema. E agora que estou aqui, o tão chamado ‘escritor profissional’, após jogar 50 anos fora, descobri que há outras coisas nojentas além do sistema.

Lembro-me de uma vez em que trabalhava como empacotador numa empresa de luminárias e um outro empacotador do meu lado dizer, abruptamente: ‘Eu nunca serei livre!’

Um dos patrões estava passando no momento (seu nome era Morrie) e deu uma daquelas gargalhadas gostosas, deleitando-se com o fato desse cara ficar preso para o resto da vida.

Então, a sorte que tive de finalmente conseguir me livrar desses lugares, não importa quanto tempo demorou, tem me dado certo grau de contentamento, o contentamento de um milagre. Eu agora escrevo através de uma mente velha e um corpo velho, muito tempo depois do que a maioria dos homens poderia sequer pensar em continuar a fazer esse tipo de coisa, mas dado que comecei tão tarte, devo a mim mesmo o direito de continuar e quando as palavras faltarem e eu tiver que receber ajuda para subir as escadas e não for mais capaz de distinguir um pássaro azul de um clipe de papel, eu ainda sinto que alguma parte de mim lembrará (não importa quão longe eu tenha ido)  de como passei pelo assassinato e pela bagunça e pelo trabalho duro, para pelo menos morrer de forma generosa.

Não ter desperdiçado totalmente a vida, parece ser um feito digno, pelo menos para mim.

seu garoto,

Hank.


About rltoscano

Nascido na cidade de Niterói em 1987, Rafael L. Toscano graduou-se em Ciência da Computação pela Universidade Federal Fluminense e trabalha atuando na própria área. Começou a escrever contos e poemas quando adolescente e guardava-os em diversos arquivos em seu computador ou num pequeno caderno. Em 2012 criou a página com o seu nome no Facebook, onde começou a publicar textos mais curtos sobre temas diversos. Mas foi em 2014 que passou a atualizá-la com maior frequência e a dedicar-se mais à sua maior paixão: a escrita.
Leitor e escritor apaixonado, Rafael é autor e desenvolvedor do site OToscano.com e está terminando o seu primeiro livro, um romance policial intitulado “Enforcados”.

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